Intoxicação ocupacional: falta de orientação para uso de agrotóxicos causa doenças em trabalhadores rurais

Por Mauro Menezes & Advogados - Assessoria de Imprensa ∙ 18 de outubro de 2019

Pesquisa publicada em 2018 pelo International Journal of Environmental Research and Public Health revelou a prevalência de problemas respiratórios, reprodutivos, hormonais e um casos de câncer com possível relação ao uso de agrotóxicos em 82 trabalhadores da zona rural de São José de Ubá-RJ. Foram realizados questionários, exames de sangue e de capacidade pulmonar, que revelaram que os trabalhadores rurais apresentaram pior condição respiratória do que pessoas não expostas a agrotóxicos; ainda, no período da safra, sintomas como tosse, alergia nasal e dificuldade para respirar foram mais prevalentes do que na entressafra. Ao menos um sintoma agudo de exposição aos pesticidas, como irritações nas mucosas, dor de cabeça, taquicardia e palpitação, tontura, dor de estômago e câimbras, foi relatado por 90% dos entrevistados; 70% relataram sintomas crônicos, como alterações no sono, irritabilidade e dificuldade de concentração e raciocínio.

A exposição dos trabalhadores rurais brasileiros é inversamente proporcional ao esforço empreendido para medir o impacto do uso dos produtos à saúde. Estudo evidencia, ainda que não são fornecidas informações suficientes sobre os cuidados a serem tomados: apenas 22,9% das pessoas avaliadas receberam treinamento prévio ao uso dos produtos ou apoio técnico para manejo. São comuns relatos de indivíduos armazenando água para beber em frascos de agrotóxicos, bem como consumo de alimentos com as mãos não higienizadas após o uso do produto.

A preocupação com os efeitos deletérios do uso de agrotóxicos é ainda mais importante desde que, no final de julho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou a aprovação de um novo marco regulatório para agrotóxicos, trazendo mudanças significativas na classificação toxicológica dos agrotóxicos e mudanças na rotulagem dos produtos. A classificação de toxicidade é baseada em estudos de mortalidade, deixando de medir a ocorrência de sintomas não fatais. A aprovação recente de 382 novos agrotóxicos – registro mais alto da série histórica – coloca o Brasil no topo do ranking de uso de produtos agroquímicos.