‘Não tem como estar na posição que ocupo e não falar sobre racismo’

Por Mauro Menezes & Advogados - Assessoria de Imprensa ∙ 13 de abril de 2021

Marcelise Azevedo fala sobre a igualdade racial no Direito

Marcelise Azevedo, advogada, sócia e diretora de Marketing e Relações Internacionais de Mauro Menezes & Advogados, fala sobre o tema.
Marcelise Azevedo, advogada, sócia e diretora de Marketing e Relações Internacionais de Mauro Menezes & Advogados, fala sobre o tema.

“A advocacia não está afastada do mundo. Ela reproduz a realidade. E na nossa realidade, as pessoas negras, especialmente as mulheres negras, estão em funções que são menos valorizadas”. Quem faz a constatação é a diretora do escritório Mauro & Menezes Advogados, Marcelise de Miranda Azevedo.

De fato, pesquisa de 2019, do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), em parceria com a Aliança Jurídica pela Equidade Racial, mostra que pessoas negras são menos de 1% entre advogados de grandes escritórios de São Paulo. Entre pessoas brancas no ramo, 48% são sócios e advogados juniores, plenos ou seniores. O estudo ouviu 3.624 pessoas em nove bancas de advocacia da capital paulista.

Diretora de Marketing e Relações Institucionais e coordenadora do escritório Mauro Menezes & Advogados em Brasília, Marcelise define o racismo brasileiro como “envergonhado e hipócrita”. Nesta entrevista a CartaCapital, ela ainda fala das relações entre o racismo estrutural e a desigualdade racial no meio jurídico.

CartaCapital: Por que há poucas pessoas negras, e principalmente mulheres, em cargos de chefia na advocacia?

Marcelise de Miranda Azevedo: A advocacia reproduz o nosso mundo. Ela, obviamente, não está afastada do mundo e da nossa realidade. Na nossa realidade, as pessoas negras, especialmente as mulheres, estão em funções que são menos valorizadas financeiramente. Nos trabalhos domésticos, tarefas de cuidados, que são trabalhos de menor remuneração e considerados menos relevantes.

Se olharmos também na medicina, na arquitetura, nos conselhos, nos boards das grandes empresas, a gente ‘conta nos dedos’ o número de mulheres e, mais ainda, o número de mulheres negras. E isso é uma reprodução do racismo estrutural da nossa sociedade.

CC: Como mudar esse cenário?

MMA: Não dá para esperar uma suposta melhora em relação ao racismo. A gente vai tentando fazer tudo ao mesmo tempo. Enquanto tenta solucionar o problema social, estrutural, do Brasil, vai cavando espaços dentro das estruturas atuais. Há saídas, e muitas dessas saídas já estão experimentadas em organizações da sociedade civil: nas universidades públicas, com a política de cotas; cotas em concursos públicos; cotas para vagas de professores universitários. Podemos trazer essa experiência, também, para a iniciativa privada, para as grandes corporações, para as bancas de advocacia.

Eu sempre brinco que para as mulheres existe o chamado teto de vidro, que as impede de passar das funções operacionais para as funções executivas, e para as mulheres negras eu digo que existe uma porta de vidro. Ou seja, elas não conseguem nem passar para o lado de dentro. E o jeito de resolver isso é ter pessoas negras nas posições de gestão. Essa visão de que precisamos ter um espaço de diversidade, de que precisamos ter mulheres negras em tais posições. Na verdade, eu não gosto muito da palavra diversidade. Como assim diversidade? Num país em que a gente é maioria, como é que se pode dizer que isso é diversidade?

Confira a entrevista da Carta Capital na íntegra.